Mateus Macêdo – vida veda

Ayurveda - descomplicado

Eu adoro a oportunidade de descomplicar o Ayurveda e mostrar que ele não é um bicho de sete cabeças, mas sim puro bom senso aplicado à vida. Mateus Macêdo 

Vamos conhecer Mateus Macêdo?

Enquanto muitos procuram respostas no exterior, Mateus Macêdo atravessou continentes para regressar à origem. Brasileiro e fundador do Vida Veda, a sua jornada é movida por uma busca profunda por conhecimento vivido, não apenas estudado. 

À data desta edição, encontra-se na Ìndia, integrado na rotina de um hospital tradicional indiano, onde o Ayurveda é praticado na sua forma mais pura. Entre ervas medicinais, rituais terapêuticos e a sabedoria transmitida de mestre para discipulo, Mateus mergulha na essência de uma medicina miilenar que une corpo, mente e consciência.

Não se trata apenas de formação, mas de transformação. Cada experiência vivida na Índia fortalece a missão que trouxe para o Ocidente: traduzir ensinamentos ancestrais numa prática acessivel, profunda e alinhada com os desafios do mundo moderno. 

Com o Vida Veda, Mateus convida-nos a desacelarar, escutar o corpo e recordar que a verdadeira saúde nasce do equilíbrio. 

Porque é que, mesmo com tanta informação sobre saúde, nunca estivemos tão cansados?

Porque a gente trata o corpo como se fosse o estagiário mais mal pago do escritório: exigimos que ele produza sem parar, damos a pior comida, não deixamos ele descansar e, quando ele reclama, a gente quer demiti-lo ou dar um remédio para ele calar a boca. A gente acha que dormir é perda de tempo. As pessoas querem dormir mal, assistindo a séries ou mexendo no telemóvel até tarde, e esperam que o corpo acorde incrivelmente bem no dia seguinte, sem terem feito nada para isso acontecer. E quando acordam exaustas, o que fazem? Tomam café. O café vira o “analgésico” para o cansaço, mascarando o sinal de que o corpo precisa de repouso, não de estimulantes. 

O que o Ayurveda sabe ...

sobre o corpo humano que a medicina moderna ainda ignora?

O Ayurveda sabe que você não é uma máquina isolada; você é um sistema complexo onde a digestão (Agni) é a base de tudo. A medicina moderna é maravilhosa para tratar traumas e emergências, mas muitas vezes ela falha nas doenças crónicas porque trata o sintoma e ignora a causa. Eu uso muito a analogia do “chute na parede”: se você chuta a parede todo dia e o dedo fica roxo, não adianta o médico passar um analgésico se você não parar de chutar a parede. O Ayurveda foca em parar de chutar a parede. Além disso, o Ayurveda entende que a saúde não é só a ausência de doença, mas um estado de felicidade e plenitude. Se a sua alimentação te deixa infeliz, ela não é saudável.

Existe mesmo uma alimentação “saudável” universal ou isso é um mito perigoso?

É um mito perigoso. O que é remédio para um pode ser veneno para outro. A gente tenta generalizar dizendo “coma uma mão cheia de comida”, mas se você é um atleta olímpico com uma fome tremenda e eu sou um escritor sedentário, a mesma quantidade vai ser pouco para você e muito para mim. A alimentação ayurvédica é aquela alinhada com quem você é, onde você vive, a estação do ano e a sua capacidade digestiva (Agni) naquele momento. Seguir tabelas rígidas de “pode e não pode” sem se observar é uma armadilha.

Que erros diários estamos a cometer sem perceber e que o Ayurveda identifica de imediato?

O maior erro é comer sem fome. Se não tem fome, não tem “fogo” na lareira para digerir a comida. Outro erro clássico é o “chute na parede” alimentar: comer coisas que sabemos que nos fazem mal, mas justificamos como uma recompensa emocional (“eu mereço porque tive um dia difícil”). Também vejo muita gente a estragar o sono levando o telemóvel para a cama, expondo-se à luz azul que bloqueia a melatonina e impede o descanso profundo. E, claro, a falta de atenção plena: comemos distraídos, vivemos distraídos, e isso gera Ama (indigestão e toxinas).

O que acontece ao corpo quando vivemos constantemente fora do nosso ritmo natural?

O corpo cobra a conta, e essa conta chega com juros. Nós temos um ritmo circadiano natural; fomos desenhados para acordar com o sol e recolher quando escurece. Quando você vive em “vigília noturna”, ficando acordado até tarde, você aumenta a predisposição para doenças cardiovasculares, cancro e problemas metabólicos. Se você come tarde da noite, quando o corpo já devia estar a descansar, você cria toxinas (Ama) porque a digestão não acontece direito. Basicamente, viver fora do ritmo é plantar a semente da doença crónica que vai nascer daqui a 10 ou 20 anos.

Porque é que seguir tendências de bem-estar pode estar a afastar-nos da verdadeira saúde?

Porque essas tendências muitas vezes nos tiram a autonomia e a capacidade de auto-observação. Você começa a comer de 3 em 3 horas porque alguém disse que é bom, mesmo sem ter fome, e ignora o seu corpo a dizer “pare”. Ou toma suplementos isolados, como vitamina C ou curcumina, achando que é melhor que comer a fruta ou a especiaria inteira, quando a natureza funciona por sinergia. Seguir cegamente “o que dizem” infantiliza a sua relação com a saúde. Saúde é liberdade, não é seguir regras que não fazem sentido para a sua realidade.

Qual é o primeiro sinal de desequilíbrio que quase toda a gente ignora?

A má digestão e a falta de energia ao acordar. Se você precisa de café para “ser alguém” de manhã, isso não é normal, é sinal de que o sono não foi reparador. Se você come e sente peso, gases, ou se o seu intestino não funciona como um relógio, isso é o corpo a acender a luz amarela. A gente normalizou o sofrimento: achamos normal ter azia, normal dormir mal, normal estar ansioso. Para o Ayurveda, se não há felicidade e bem-estar pleno, já existe um grau de doença.

Se uma pessoa só pudesse mudar um hábito hoje, qual teria maior impacto na sua saúde segundo o Ayurveda?

Parar de comer sem fome. A fome é o sinal de que o seu Agni (fogo digestivo) está pronto para processar o alimento. Se você come sem fome, você cria toxinas que são a raiz da maioria das doenças. E, se eu pudesse dar um segundo conselho, seria: cuide do seu sono como se fosse uma viagem sagrada. Prepare-se para dormir, desligue as telas, crie um “templo do sono”. Sem sono e digestão adequados, não existe saúde.

O Ayurveda é preventiva por natureza. Na tua opinião porque é que só ouvimos o corpo quando ele “grita”?

Porque estamos desconectados do momento presente. Estamos sempre no passado ou no futuro, distraídos pelo telemóvel, pelas notificações, pelo barulho mental. O corpo sussurra o tempo todo, mas a gente só para quando ele grita de dor porque perdemos a capacidade de “silêncio” e auto-observação. Além disso, somos péssimos a entender causa e efeito a longo prazo. Achamos que a doença é um azar, uma surpresa (como um “Kinder Ovo”), quando na verdade estivemos a regar essa planta todos os dias com os nossos maus hábitos.

O que significa, afinal, estar verdadeiramente saudável na visão ayurvédica?

Saúde é liberdade. É quando o corpo não é um obstáculo, mas um veículo potente para você realizar o seu Dharma (propósito). É ter os Doshas em equilíbrio, a digestão (Agni) forte, os tecidos bem nutridos e as excreções a funcionar bem, mas não só isso. Os textos clássicos dizem que a saúde (Swasthya) exige que a alma (Atma), os sentidos (Indriya) e a mente (Manas) estejam num estado de felicidade e contentamento (Prasanna). Se você tem os exames de sangue perfeitos mas está triste ou ansioso, para o Ayurveda, você não está verdadeiramente saudável.